
Celso Roth deixou o sofrimento e as contestações a beira do gramado para se tornar um dos melhores comentaristas do meio jornalístico esportivo. Para Roth, o goleiro, o meia de criação e o centroavante são os mais cobrados, são personagens que para o público e para os analistas de plantão, pagam um alto preço caso não correspondam às expectativas. Em situações em que um atleta comete erros, afirma ele, o treinador tem que saber lidar com o problema, tem que compreender o real valor do jogador para a equipe, verificar se não é uma uma dificuldade momentânea, enfim ver o atleta como ser humano, que pode errar em determinados momentos. Num de seus textos, no blog da RBS, comenta: "Quem olha de fora, não tem noção do que é um elenco de clube grande. O caminho mais fácil e comum para quem não vive o dia a dia é jogar fora no lixo (como diz a Sandra de Sá) quem está mal, e elevar às nuvens quem está indo bem".
Os formadores de opinião e o público em geral tanto podem falar mal hoje, como podem falar bem amanhã, e tudo muda conforme as circunstâncias, conforme o ponto de vista. Segundo Roth, os atletas até sabem bem lidar com essa situação, mas podem ser afetados nos momentos de crise. O que hoje é "ouro", amanhã pode ser um "lixo". E tudo muda conforme os ventos.
Deixando o mais novo grande comentarista do meio esportivo de lado, vemos nos poemas de Shakespeare a seguinte reflexão: "Se os homens sei que como plantas arborecem E o céu que lhes dá aplauso é o céu que os vem vaiar; Gloriam-se da seiva e no ápice decrescem, Para afinal esse auge esplêndido olvidar (SONETOS, XV)".
Se observarmos bem o mundo do esporte, sobretudo, o mundo do futebol, perceberemos o quanto a vida como profissional, seja do jogador ou do técnico, é marcada por bons e maus momentos, em que os seres humanos estão cercados de hipocrisia por todos os lados, e a sorte os poderá tornar tanto ídolos hoje, como vilões, amanhã.
O que separa o craque do perna de pau? Atualmente, basta um jogador viver um bom momento para a imprensa o transformá-lo num craque. O contrário também pode acontecer com profissionais que não suportam a pressão, o estresse, a cobrança por resultados imediatos.
Existe o craque, o bom jogador, o jogador mediano e o pereba, que conhecemos como "perna de pau", aquela figura que não entendemos como chegou ao profissional. A palavra craque, segundo o dicionário, significa uma onomatopeia de algo que se quebra(crack!). Daí vem talvez o sentido de que craque, no futebol, é aquele que arrebenta, aquele que "quebra" o adversário. Na mitologia grega, Crack é um monstro sedutor e perigoso, cheio de tentáculos, que devorava seus adversários, a serviço do Deus Hades, no reino dos mortos. Sem levar em conta o sentido atribuído a droga mais famosa, e voltando para o futebol, O que é um craque?
O craque é um jogador que desequilibra, que faz a diferença. Como a onomatopeia da língua portuguesa, pode significar aquilo que quebra o adversário, ou como na mitologia, seria aquele que destroi e vence o adversário dentro de campo. O craque é craque porque prova isso dentro das quatro linhas. Em outras palavras, o que podemos entender por craque, é que ele seria um jogador que já levantou a taça de campeão do mundo ou já foi eleito melhor do mundo e é reconhecido e temido por todos.
Todos concordam que Messi é craque. Alguns argentinos o consideram, tecnicamente, melhor que Maradona, exceto no quesito seleção argentina. Messi ainda não teve o mesmo desempenho na sua seleção. Ele alternou boas e más atuações e não conseguiu ser campeão do mundo pela seleção de seu país. Alguns justificam o fato, por ele, jogar num time muito bom, que é o Barcelona. Na seleção argentina, ele não tem os mesmos jogadores qualificados como no time Catalão. Mas e o Maradona? Maradona foi craque na Seleção e Maradona foi craque nos clubes por onde passou. A ideia de que Messi não joga bem na seleção por causa da pouca eficácia de seus companheiros se torna uma falácia, quando lembramos que Maradona também jogava praticamente sozinho na época em que atuou.
Então de novo volta a questão? Messi é craque assim como Maradona? Ou teria sido Maradona um gênio, um gênio entendido como um personagem acima do próprio craque, acima do normal?
Neymar é craque no Santos, ou seja, para os santistas, no campeonato paulista, e em alguns jogos do Brasileirão! A nível mundial está longe de ser craque, pois ainda não foi campeão do mundo nem sequer pelo seu clube, muito menos pela Seleção. De modo geral, se o craque é aquele que já provou que é craque com títulos, então Neymar ainda não é craque, é uma historinha que nos contam na televisão. Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Romário já foram craques.
Renato Gaúcho foi craque do Grêmio, do Flamengo, do Fluminense, do Bota-Fogo, do Cruzeiro. Na seleção brasileira, contudo, não era craque, era apenas mais um entre tantos bons jogadores.
Existem outros grandes jogadores que atuam no futebol brasileiro, que podem ser considerados como grandes jogadores ou bons ou excelentes jogadores, mas não são craques.
Assim, por exemplo, D'Alessandro pode ser classificado como excelente ou ótimo jogador, mas não é craque. Jogadores revelados pela dupla, como Anderson e Pato, eram considerados "novos craques", hoje seriam bons jogadores, atuando em grandes clubes da Europa, porém, não são craques, pois não estouraram no maior futebol do mundo e nem sequer na Seleção tem lugar entre os titulares, o que nos leva a duvidar se estariam no pelotão de elite, por assim dizer. Jonas provocou uma grande crise na falta de gols, a partir do momento em que deixou o Olímpico. Era um excepcional atacante, mas não podemos chamá-lo de craque. Para os gremistas, Tarciso, sim, foi craque. O Paulo Nunes de 95 e 96 fazia a diferença e podemos dizer que, no Olímpico, foi craque. O lateral esquerdo Roger, hoje auxiliar técnico, e treinador titular no próximo Grenal, era de médio para bom lateral. E no entanto, desde a sua saída em 2001, o tricolor não encontrou estabilidade na lateral esquerda.
No time atual do Grêmio, Victor é um bom goleiro, está longe de ser apenas um médio. Gabriel e Mário Fernandes são bons jogadores, longe de serem apenas médios. Julho César também é bom jogador, um pouco acima da média. Ninguém nega que Fernando é um bom volante, provavelmente, um dos próximos a figurar na seleção brasileira. Kleber e Marcelo Moreno já provaram que são ótimos atacantes, resta manter essa escrita. No mais, jogadores como Marco Antônio, Marquinhos, Léo Gago, são jogadores de nível médio, considerados, bons jogadores para os seus clubes de origem, como a Portuguesa de Marco Antonio, o Coritiba de Leo Gago e o Avaí de Marquinhos. No tricolor, no entanto, estão longe de ser os melhores, são considerados jogadores de nível médio.
Outras figuras desconhecidas ainda são incógnitas, difíceis de qualificar, muito cedo para termos uma avaliação, como é o caso de Grolli, Naldo, Pablo, Felipe Nunes, etc. Não será surpresa se daqui a algum tempo, esses atletas não sejam destaques por outros clubes, em outras circunstâncias, em outra fase da carreira, como já aconteceu.
Bolívar foi dispensado pelo Grêmio por ser considerado muito limitado como lateral direito. Pouco tempo depois, teve a oportunidade de entrar para história do Inter, como um dos zagueiros mais vitoriosos com a camisa colorada. Guiñazu atuava com meia esquerda avançado, e era horrível de se ver. Tite alterou seu posicionamento para a segunda função do meio campo e ele se tornou um dos melhores volantes da América do Sul. Damião rodou por times da segunda divisão do futebol catarinense, e nem o Paraná Clube apostava um vintém. Hoje está supervalorizado, cotado para jogar no melhor time do mundo.
A sorte, a fama, a glória, é momentânea e passageira. E o que entendemos pela palavra craque hoje, pode não ser a mesma amanhã. Os vilões de hoje, podem ser os heróis de amanhã, como Luxemburgo, que nos tempos de Parmalat era vilão dos gremistas. Hoje, porém, não se tem outra alternativa para os gremistas a não ser torcer para que seja o salvador. O futebol como a vida é cheia de ironias, cheia de surpresas e mudanças.
Alguns críticos consideram a demissão de Caio Júnior precipitada, pois com a fragilidade do elenco atual, a responsabilidade não poderia ser atribuída somente ao técnico, que não é capaz de fazer milagres. Joguem o time no "lixo", não se pode fazer nada com essa equipe! Mas será mesmo impossível extrair algo de bom desse grupo? Já vi o tricolor com time pior que esse, dando melhores resultados!
No geral, o time do Grêmio, a meu ver, está de médio para bom, muito acima dos times do interior, e mesmo assim Caio Júnior não conseguiu dar padrão à equipe. Celso Roth pode ser contraditório por nos trazer em seu blog grandes ideias, contrariando aquilo que fazia na prática quando estava à beira do gramado. No entanto, ele está absolutamente certo em afirmar que o treinador tem que administrar os conflitos, quando a opinião comum joga contra, quando a multidão julga pelo momento. Conceitos de "craque", de "bom" e de "mau" jogador são relativos e mudam conforme o tempo e conforme o contexto. Não há uma "verdade absoluta" ou uma conotação que nos livre de equívocos de julgamentos preconcebidos, sem a influência do meio em que nos rodeia, sem influências externas, que possam fazer com que tenhamos um ideia descompromissada e desinteressada.
Quem garante que Grolli não será o herói com a camisa do Inter amanhã, já que foi colorado na infância?